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conto recente Destino Selado Terror Escrito por Leonardo Nunes Nunes 
Dedico este conto a Eden Phillpotts, por seu grandioso trabalho em “O Abacaxi de Ferro”; uma estória diretamente influenciada pela supracitada. Dar paz à alma é algo que venho tentando há meses. Talvez escrevendo eu consiga retardar meu horror, coisa que não consegui nem confessando-me ao padre Antônio. Uma inquietude me faz tremer diante de uma constatação: sou um assassino. No entanto, para que não tirais precipitadas conclusões, antecipo dizendo que os dois tiros por mim proferidos daquela velha carabina foram em absoluta legítima defesa! De trem havia viajado quinhentos quilômetros até a cidade litorânea de Passo Santana e lá, fixado em uma casa alugada, permaneci todo o inverno bastante rigoroso. Com freqüência perambulava pela orla da praia deserta perdido em pensamentos e efabulações diversas, inclusive em como pagaria a minha dívida para com a sociedade: aos olhos de todos, eu era um vagabundo vivendo de esporádicos, informais e rápidos empregos. Paguei adiantado aquele aluguel de elevado valor e imediatamente desfrutei do clima ameno e inspirador da região. Na praia havia um pintor. Frequentemente pintava de forma liberal a bela praia: céu, areia, água, nuvens e o sol por elas encobertas. Vi o quadro semi-acabado, quando ausentou-se por determinado tempo. A pintura retratava a visão de uma pessoa amargurada, vendo uma imagem tão ou mais triste ainda, envolta por sombras como demônios à espreita. Vi cada detalhe tão bem expressado, que pensei tratar-se d’um pintor profissional – nada seria capaz de tirar essa constatação de minha mente. Ele voltou. Afastei-me sem que me pudesse ver. Distante, permaneci observando-o. Meu amigo, no dia seguinte, chegara cheio de boas intenções. Quisera eu ficar só, mas nenhum argumento seria capaz de convencê-lo do contrário. Meu amigo era um louco, muitas vezes intolerável. No início, nos primeiros dois dias, um marco atingido, permaneceu aparentemente quieto, tranquilo, passando a impressão de que estivesse recuperado, mas, a partir do terceiro dia de sua chegada, voltou a agir daquela forma tão conhecida e tão irritante de ser: um transtornado. Pequenas obsessões ele passou a adquirir; uma em especial foi a afeição por uma aranha que encontrara na sala. Assim que o tempo passava, adquirira novas e até maiores obsessões: de um objeto que ornamentava a sala de estar da casa, d’algum móvel com características que somente ele percebia, chegando ao absurdo de observar, constantemente e com extremo zelo, uma latrina bastante velha. Nem sei porquê permiti que na mesma casa ficasse. Talvez por pena, quem sabe. O conhecia desde os tempos daquela maldita faculdade, que nunca levei adiante como profissão; sabia dos problemas, mas nunca pude acreditar que, senão a si próprio, poderia ferir alguém próximo. Mas sempre há uma primeira vez para tudo: inclusive matar. E foi a partir do décimo quinto dia de sua chegada que despertou, por mais que tentasse não demonstrar, um estranho interesse por um abacaxi da grade. Percebi esse crescente interesse quando, de tempo em tempo, saía de dentro de casa, da concentração d’algum outro detalhe qualquer que somente ele percebia, para permanecer parado diante do gradil, especialmente diante a um ponto que muito bem poderia confundir com a observação do mar gelado, no entanto de foco muito próximo. E então, como se em algum livro apócrifo escrito estivesse, senti o aumento do seu interesse a respeito daquele amado abacaxi, e a sua intenção de como poderia pegá-lo. O gradil era composto, a cada cinco metros, de pilares de metal fundido a abacaxis de ferro. “Como poderei obtê-lo?”, era a pergunta que, certamente, ensaiava-se em sua mente. Nesses dias a incursão à beira do mar de meu amigo fora negligenciada sumariamente, de modo que preferia permanecer só enquanto pela praia eu caminhava. Vez por outra, voltava da observação de um ponto em específico do gradil alisando seu bigode, como se quisesse demonstrar maquinar ideias. Vez por outra, seu ar de triunfo era substituído por uma catadura circunspecta, como se tivesse encontrado algum erro em seus cálculos. Dois dias depois inquiriu-me, desta vez, de forma aparentemente lúdica: “Amigo meu, deixe-me cerrar aquele abacaxi de ferro”. Olhei fundo em seus olhos, como se esperasse uma tola brincadeira que dele estivesse partindo. Vi que naqueles olhos ardia chamas d’um incontrolável fogo; percebi que usava de toda uma verdade para conduzir-me a uma positiva resposta. Então, lhe respondi: “Preciso pensar”. Ao que sua face assumiu um aspecto mais rígido, quase desespero. Disse-me ele: “Eu necessito! Por tudo o quanto lhe é mais sagrado e sacramentado, deixe-me adquiri-lo. Eu o amo!”. Essas últimas palavras saíram juntas de um intenso fulgor, ódio, aflição, cólera; era mais uma vez aquele louco, porém desta vez com um toque de descontrole até então nunca apresentado. “Sim”, foi o que, carrancudo, sussurrante, eu disse. Sabia que minha resposta abriria uma fenda na continuação do tempo que daria livre acesso às negras e pestilentas criaturas emergirem das profundezas sujas e ainda mais caóticas, carregando consigo, em seu âmago, um horror desconhecido e inevitável: eu iria pagar caro. Por longos dias e longas noites adorava-o com extremo fervor, como se fosse o abacaxi de ferro um deus. As pessoas acreditam que esse amor somente por uma pessoa pode ser sentido e explicado por uma gama de respostas, das mais variadas razões; no entanto, por um objeto qualquer, consideram-no um louco desprezível. Era o abacaxi de ferro e nada mais. Certa manhã deixei-o sozinho e fui caminhar. Em dado momento reencontrei o pintor e parei, ligeiramente atrás d’um monte de areia, para observá-lo. Iniciava um novo quadro. Desta vez, embora um pouco distante, vi tratar-se de uma pintura focalizando explicitamente o mar, pois a posição em que o artista estava assim denotava. Já havia estado ausente ao longo daquela semana, talvez por estar doente, ou por ser pobre, ou, até mesmo, propositalmente, devido a escolha perfeita de um dia nublado. E eu estava com saudades. Nem era tanto a questão da habilidade no manuseio dos pincéis, mas do afinco, da loucura em busca de inspiração, daquilo que exalava do seu âmago e que parecia ser maior que o próprio Oceano. Eu sentia isso. Talvez nem soubesse que ali, não muito distante, havia um observador assíduo, um incondicional fã de uma maestria ímpar; talvez preferisse assim, quem sabe, no completo anonimato, a sua criatividade aflorasse de forma arrebatadora. O vi desenvolver pictóricas obras que representavam, a meu ver, todo um mundo por ele criado, e, acredito, vivido, desde quando ali cheguei. Era meu amigo com aquele abacaxi de ferro e eu com as obras criadas daquele verdadeiro artista. Durante algumas noites meu amigo parecia ter febre. Delirava em meio a sonhos de mundos e criaturas ominosas; n’uma dessas noites, compadecido, adentrei no quarto que ocupava e o escutei, em murmúrios, falar coisas sem contexto algum, balbuciando frases, na maioria das vezes incompletas; pude escutá-lo dizer algo que surpreendeu-me: “O abacaxi e o pintor, o pintor e o abacaxi, e muita areia!”. Imediatamente saí do quarto e, no meu, deitado em minha cama, relembrei a frase escutada. O que sabia ele sobre o homem das artes? O que queria ele com o artista? Resolvi que, na manhã seguinte, deveria – e iria – falar com ele. De certa forma, mesmo sob completo delírio, meu amigo a mim ofendia ao pensar algo de ruim para o pintor.  Chegada a manhã, assim que o vi sentado, tomando o café matinal, ao seu lado, fiquei olhando-o até perceber-me ali. “Ô amigo. Estava tão concentrado em meu café que nem o vi chegar. Desculpe-me por essa falha”, assim recepcionou-me na cozinha. “O que há, meu caro?”, perguntou. Mas ainda o respeitava, de modo que, mudando meu plano original, respondi-lhe da mesma forma de como recebeu-me: respeitosamente. “Meu amigo, diga-me, por favor, o que lhe está acontecendo”. Para meu espanto, sua verdade fez-me ter vergonha de meus acusadores pensamentos. E disse: “Meu amigo, pois bem. Nunca conversamos dessa forma, mesmo depois de tanto tempo de amizade, de tal modo que devo, obrigatoriamente, ocultar todas as mentiras falando-lhe apenas a verdade. Há muito venho tendo problemas, como bem sabes, e sua origem tem, antes de tudo, no alto poder que meu cérebro concentra assim que algum objeto, animal ou vegetal é visto, tomando-me e usurpando-me das demais forças. É algo inevitável. Não há cura. Não pertenço ao grupo dos que o desenvolvimento mental não chegou à média, muito pelo contrário. Sou aquele que pode tudo, e que nada teme. Minha pseudo-doença tem nome e explica meus atos. Mas não sou, em hipótese alguma, um autômato por completo. Caso contrário não estaria aqui contigo conversando. Sei, também, que ouviste-me falar alguma coisa enquanto desbravava sonhos e mundos. Nada tenho a dizer senão ser tudo verdade. Minh’alma anseia por liberdade”. “O abacaxi e o pintor”, detive-me por falar. “E muita areia! Sim, amigo meu. Eu vejo, todas as noites, um ser que vem à praia para pintar”. “Eu imploro, deixe-o”, apenas respondi. “São meus sonhos, amigo”; e, mais uma vez, em sua voz, aquele ódio detestável; nada mais relevante marcou aquele meu dia. Assim que o relógio tocou as dez badaladas matinais e a chuva cessou, fui novamente à praia na ânsia de novamente vê-lo pintar, no entanto, percebendo sua ausência, fui até o mar e permiti-me molhar nele os pés. Minha concentração, entretanto, não fora o suficiente, pois, não muito distante, vi meu amigo banhar-se naquelas águas geladas; perguntei-me o que ele fazia ou pensava fazer, jogando os braços para o alto como se reverenciasse algum deus desconhecido, gritando uma língua não menos estranha. Tentei aproximar-me dele, mas uma onda carregou-me três metros mar adentro. Depois d’alguns goles daquela água salobra, fui carregado de volta à areia pelo próprio. “Por favor, amigo! Não morra, eu preciso de você”, o ouvi falar. “Estou tonto, mas estou bem”, respondi-lhe, enquanto, na areia deitado, observava aquele nublado e chuvoso céu. “Que bom. Você foi designado a auxiliar-me n’uma tarefa atroz”. Acho que se eu fosse levado pelas águas tudo estaria diferente e eu, melhor. Mas salvou-me de uma morte digna, jogando-me ao que considero inferno. Já estávamos em casa quando iniciou falando: “Meu caro, por sorte estava próximo quando tudo aconteceu. Engana-te por pensar que uma simples onda pudesse ter feito aquilo contigo, pois foi aquele horroroso tentáculo que lhe causou tanto pânico”. Assim disse meu amigo sem, contudo, demonstrar graça. Coitado, os sonhos haviam transposto a barreira da realidade fazendo-o delirar em plena vigília! E assim continuou: “Posso conversar com Deus e dele receber desígnios muitas vezes atrozes, porém assaz dentro de um objetivo. E disse-me ele que devemos matá-lo”. A entonação com que essa última palavra de sua boca saíra fez-me perder o ar momentaneamente. A essa altura já nem conseguia mais refletir em palavra alguma e, como uma voz alienígena, pude escutar de minha boca sair uma expressão condenatória: “Sim”. Em minha mente pensamentos corriam com demasiada pressa que não pude, naquele infinito espaço de tempo, ordená-los. Minha resposta fora afirmativa! Quem sou eu para designar o destino d’outra pessoa? No entanto, respondi-lhe de tal forma e não poderia, jamais, voltar atrás e embora escolha tivesse, assim preferiria. No seu quarto, o amado abacaxi repousava por sobre sua cama como se descansasse para obter forças à uma batalha futura. Descansava, um rei, soberano, de uma incontrolável vontade. Não tardou para o crucial momento chegar. Assim que chegamos ligeiramente atrás daquele monte de areia e avistamos o artista, usando de fartas palavras, como que possuído por uma intolerável força, disse-me: “É chegado a hora do descanso, amigo meu. Eis ele, a criatura que de dentro e do fundo do mar veio, para pintar o mundo exterior e retornar carregando consigo fiel retrato de nossa seca morada. Disse-me Deus que devemos matá-lo! E é o que vamos fazer, com a ajuda disso!”, e levantou seu precioso abacaxi; “Para tanto, seu auxílio é de fundamental importância. Somente assim conseguiremos chegar a um futuro digno de glórias e vitórias”. De súbito pôs-se em pé, com o dedo da mão direita indicando o caminho. O segui – e não lembro se barulho fizemos, ou se pela areia andamos. Ainda que nosso arfante respirar marcasse nossos passos, somente o vento, que parecia aumentar, poderia escutar. E por um breve momento pude vislumbrar, naquele limite de tempo entre a força do braço e a desvairada queda até o obstáculo, uma pintura jamais entrevista por olho humano algum. Retratado estava o grandioso mar, abraçado por estranha criatura com tentáculos e, na areia, três silhuetas sombrias, uma delas desfalecida; o céu chorava. Fui despertado por uma também estranha visão ao longo do mar e pelo ruído do ar sendo cortado, seguido d’um barulho oco e da queda, pela areia amortecida, do corpo do artista. “Era assim que deveria ser; por isso seremos recompensados”, disse-me antes de uma última pancada naquele homem; em minha mente pude ouvir o mundo bradar, a mim acusar e o morto novamente falar. A sua postura parecia-me desprotegida por demais, parecia-me consolada por já conhecer seu desditoso fim. Deveras. Tomei consciência de nosso ato e despertei de volta à vida. Decidi que deveríamos sepultá-lo, ao passo que de meu amigo recebi agressiva resposta, como se não mais ele lá comigo estivesse; “Não atreva-se a levantar lápide qualquer a uma abominável criatura como essa! Devemos jogá-la ao mar e deixar que as águas o levem de volta para sua cidade. Será nosso aviso de que não são bem-vindos e jamais serão”. Carreguei seu corpo ao mar e esperei que as ondas o levassem, aflito frente a uma dúvida, se viv’alma tivesse ou não nos visto. Foi dessa forma que fomos para casa, a fim de corroborar a horrorosa consequência de tal desprezível ato. Em casa e por todo o caminho de volta, meu amigo não parava de jactar-se por tê-lo feito; não parava de soltar estrondosas gargalhadas. “Você viu? Viu como aquele ser maldito foi beijar a areia? Viu seu quadro, o quadro que pintava, queimar?”. Não pude conter meu estrépito[2] ao esbravejar contra sua contagiante loucura, fazendo-o calar e recuar tal qual demônio à meia-luz. Gritei com toda a minha força; no entanto, meu grito era de loucura, pois dele contraí, de meu âmago explodiu rompendo barreiras instransponíveis. Olhei, em desespero, para todas as direções, começando a tontear. Estiquei o meu braço até o móvel ao lado do sofá, pois estava lá, vinda de nenhum outro conhecido lugar, sorrateira, silenciosa feito a escura noite, aquela velha carabina cor de âmbar; e no infinito de meus pensamentos, apenas uma palavra criava vida: dispare. Assim que seu corpo caíra ao chão, senti meus olhos arregalar de tanto pavor. Suava. Tremia. Deveria fazer algo. Desesperadamente procurei ou por uma picareta ou por uma pá, encontrando a primeira no quarto de objetos da garagem. Quebrei o cimento, cavouquei a terra debaixo dele e lá depositei o corpo, à frente da garagem. Pus de volta a terra, refiz a decoração, escondi os fragmentos quebrados do cimento, e entrei. Não pude conter minha aflição, de modo que dois dias depois voltei para minha cidade e corri para falar com o padre Antônio, inutilmente. Paz? Como tê-la, se dessa forma deveria ter acontecido? A cada hora, a cada momento, um arrepio de gelo e fogo e uma golfada de sangue percorrem meu corpo*. Não sei como até hoje sobrevivi, ou se morri e continuei a sentir na pele todo esse horror; a dúvida parece querer aniquilar-me com seu peçonhento poder: como pude me deixar influenciar? Conduzir? Matar? A lembrança do corpo do artista na areia, do seu quadro, da criatura no mar, do corpo de meu amigo; acho que nada será capaz de impedir-me de disparar esta estranha carabina que diante de mim apareceu... *A sentença "um arrepio de gelo e fogo e uma golfada de sangue percorrem meu corpo" adotei do conto "Markheim" de Robert Louis Stevenson (1850 - 1894) como forma de homenagear o autor. * O jovem escritor Leonardo Nunes Nunes, conhecido também como Seguidorlovecraft, é apaixonado pelo gênero terror de modo geral e fã incondiconal de H. P. Lovecraft de maneira particular. Os que tiverem interesse em ler mais textos deste autor podem acessar os links abaixo: Recanto das letras: Blog do autor:
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