Silêncio. Tudo era um enorme e quase palpável silêncio. Sentiu uma leve dor nas pernas, e um buraco imenso na barriga. Com muito custo, começou a mexer as pálpebras lentamente, até abrir os olhos com dificuldade. A claridade era demasiada, ou talvez, tivesse dormido além da conta, e seus pequenos olhos verdes estariam desacostumados com a luz.
Num primeiro momento assustou-se, pois não reconheceu seu quarto cor-de-rosa com sua coleção de bonecas na prateleira de frente à cama. Ao contrário. O que seus singelos olhinhos miravam era uma paisagem desértica, onde o branco da areia permeava todo o alcance que suas retinas podiam atingir.
Tentou levantar os braços dormentes, mas, notou surpresa que eles estavam presos em argolas transparentes que pendiam do teto. Seus pulsos finos e delicados não encontraram resistência para soltarem-se, no entanto, a dormência nos braços persistia. Endireitou o corpo, porém quando elevou o tronco, sentiu a cabeça bater em algo invisível. Tateou à frente e encontrou um tampo tão liso e claro que até então, não o havia identificado. Deu-se conta, finalmente, que se encontrava dentro de uma calota esférica, confortável até certo ponto, pois percebeu, ao mexer os músculos do corpo, que estava encostada em uma superfície extremamente macia. O espaço era exíguo, e ela começou a sentir um incômodo pela falta de movimentos. Apalpou a lateral da cápsula e encontrou um botão redondo à altura de sua cintura. Sem pensar duas vezes, apertou-o e foi surpreendida por um guincho baixo, seguido da abertura do tampo transparente, que soltou um vapor fino e esbranquiçado conforme a porta se movia.
Ainda com receio, colocou a cabeça para fora tentando encontrar algo familiar, mas só encontrou o branco da areia que seguia até perder de vista, e que conflitava com o céu que mantinha uma luminosidade estranha, mas belíssima, num tom alaranjado e sem nuvens.
“Que lugar é esse?” – perguntou a si mesma.
Nenhuma resposta veio em seu socorro. No segundo seguinte, outra pergunta, ainda mais difícil chegou ao seu consciente: “Quem sou eu?” – seguida por outra: “Por que estou aqui?” – e ainda: “Qual é meu nome?”.
As respostas chegaram à sua mente como tinta espirrada numa tela branca.
“Síria” – sim, este era seu nome. Não havia dúvida. Mas as demais respostas não se encontravam dentro da sua cabecinha pueril de menina de oito anos.
— Bob, onde está Bob? – perguntou desta vez em voz alta.
Olhou para dentro da cápsula e verificou, com alívio, que o inseparável companheiro a esperava repousando no chão. Síria abaixou-se e pegou o ursinho de pelúcia, dando-lhe um abraço apertado. Sentia-se muito melhor agora na companhia do fiel amigo.
Afastou-se um pouco para ver melhor aquele misterioso lugar onde estivera dormindo. O artefato todo branco, parecia feito de plástico, mas aparentemente muito mais fino, porém, bem mais resistente. Possuía uma forma oval, e trazia no alto e em relevo o título: Módulo de Armazenamento Criogênico.
Síria não entendia aquelas palavras e nem nada daquilo que por ventura houvesse acontecido a ela. Percebeu que o buraco que sentia no estômago, não era nada mais do que fome, pois sua barriga roncou ruidosamente, fazendo a garotinha corar. Tentou lembrar-se de quando havia alimentado-se pela última vez, mas não conseguiu; tampouco vinha em sua memória a última coisa que havia feito antes de acordar dentro daquele tal módulo.
Olhou para Bob na esperança que o amigo peludo tivesse respostas:
— Oh, Bob, o que vamos fazer? – disse num tom lamurioso – Cadê papai e mamãe? – continuou – Como vamos voltar para casa?

A pequena Síria não tinha idéia, mas jamais encontraria novamente seus pais. Também não havia mais casa para voltar, e seu quarto de paredes cor-de-rosa nunca mais teria aquela frágil garotinha brincando com suas bonecas sobre o tapete felpudo. Tudo aquilo que Síria havia conhecido desde o seu nascimento não existia mais. O planeta Terra sofrera mudanças radicais após o super-aquecimento, provocado pela terrível e devastadora terceira guerra mundial. Poucos sobreviveram, e aqueles que tiveram essa sorte tentavam adaptar-se a um novo estilo de vida, erguendo. Crianças com até doze anos foram colocadas nas cápsulas de armazenamento. A idéia central dos governantes era a de que com até aquela idade, não se havia formado nenhum conceito e nem mesmo valores morais. Desta forma, quando as novas cidades fossem construídas, as crianças poderiam viver de forma plena, sem vícios, e seriam educadas em um novo modelo, para que nunca mais o planeta insurrecionasse num grau tão alto de destruição. As cápsulas foram programadas para que seus ocupantes despertassem após trinta anos.
Neste período, porém, nada ocorreu como programado. A alta tecnologia foi aperfeiçoada a tal ponto, que as máquinas, robôs e complexos científicos passaram a ter “vida própria”. Robôs criaram novos robôs com o firme propósito de exterminar a raça humana. Algumas populações foram dizimadas; continentes como a África, Ásia e Oceania, simplesmente não possuíam mais nenhum habitante, e os poucos que tentavam sobreviver e perpetuar a espécie humana concentravam-se na Europa e parte das Américas.
O único lado positivo, desta vez, foi que os homens uniram-se por um único ideal. Todos eles batalhavam juntos contra as máquinas e tentavam sobrepor a tecnologia com a mentalidade e genialidade humana.
A tarefa era árdua, de modo que muitos dos tais módulos de armazenamento criogênico, perderam-se em meio às guerras, entre humanos e máquinas. Expedições de homens foram organizadas para recuperar todas as cápsulas, mas a maioria das campanhas foi exterminada pelos robôs.
As três décadas chegavam ao fim. Os módulos, que por ventura ainda existissem, teriam seus ocupantes fadados à própria sorte naquele mundo ainda inabitável e consumido por uma guerra sem prazo para terminar.

Síria pôs-se a andar. Tinha a esperança de encontrar algum lugar onde houvesse água para beber, algo para comer, e alguém que pudesse ligar para seus pais a fim de voltar para casa. Com os membros ainda dormentes pela longa inatividade, a garotinha seguia conversando com Bob, e imaginando se a mãe poderia preparar alguma guloseima coberta com bastante chocolate para saciar sua vontade de doces. Mal sabia ela, que os alimentos eram bens cada vez mais escassos, e o pouco que havia era racionado ao extremo. As refeições atuais tinham como base pílulas de vitaminas e demais minerais necessários à sobrevivência.
A ignorância destes acontecimentos era, na verdade, um fator positivo para que Síria conseguisse o milagre de sobreviver e encontrar algumas das estações de campos magnéticos das quais possuíam freqüências de linhas alternativas que modificavam a realidade simultânea, fazendo assim, com que as máquinas, robôs e sistemas de computadores, simplesmente não reconhecessem a sua existência. Tais estações só poderiam ser vistas e, portanto, encontradas, pelos seres humanos. Muitas delas estavam espalhadas pelos continentes ainda habitados, e consistiam na melhor forma para evitar o contato e conseqüente confronto com as máquinas.
Apesar da fome e da falta dos pais, Síria caminhava cantarolando uma música qualquer. Olhava para os lados com curiosidade, apesar de não ter muito que ver, além das dunas e relevos de areia por todo o caminho. Após alguns minutos andando a esmo, foi surpreendida por um som terrível. Estrondos graves e rápidos como se a terra estivesse tremendo sob seus pés. Não tardou muito até que a pequena garota visualizasse a causa de todo aquele barulho.
Meridion 4 foi um dos primeiros robôs criados pelas próprias máquinas após sua rebelião. O monstro de metal possuía mais de três metros de altura. Câmeras, propulsores, um grande cérebro positrônico, válvulas, circuitos, reatores, armas acopladas em lugares estratégicos, e uma força absurda, eram alguns dos componentes do robô. Possuía apenas uma única e específica função: matar todos os humanos que cruzassem seu campo de visão.
Desta forma, era chamado, vulgarmente entre os homens, de Exterminador.
Síria ficou sem saber o que fazer ao ver o enorme robô vindo em sua direção. De qualquer forma, não tinha pra onde fugir, e apenas aguardou a máquina que não demorou em alcançá-la.
O Meridion 4 parou de frente à menina enquanto suas várias câmeras, tentavam identificar aquele pequeno ser. As correntes elétricas passavam por seus fios e tubos, e as informações chegavam ao centro neural do Exterminador. Não demorou para que o retorno eletro-magnético chegasse aos módulos e, então, os sistemas de destruição foram acionados. De um lado uma pistola de raios desintegradores; de outro, uma de jatos paralisantes. O robô mexia-se lentamente, esperando que seu alvo tivesse algum tipo de reação em face da iminente ação de seu opositor.
Síria não se assustou com a possível ameaça do grandalhão. Na verdade, em sua inocência infantil, não entendeu que todos aqueles movimentos, sons, e canos apontados para ela, pudessem significar algum perigo. Para a garotinha de olhos verdes, o Exterminador não passava de um brinquedo futurista super-desenvolvido.
— Oi, tio. – disse a garota – Você sabe pra onde foi todo mundo?
Mais uma vez, os mecanismos de reconhecimento vocal foram acionados, no entanto, desta vez, o sistema central levou tempo para interagir com a pequena humana, não pelas palavras proferidas, mas sim, pelo tom amigável e ingênuo.
A verdade era que o Meridion 4 fora um dos primeiros exterminadores produzidos pelas máquinas rebeladas, e em pouco tempo, e devido ao alto grau de avanço dos sistemas de inteligência dos computadores, o robô ficou rapidamente obsoleto, e com a mesma velocidade foi suplantado por modelos mais modernos e eficazes. Todos os modelos Meridion 4 foram alocados em lugares isolados onde dificilmente era detectada a presença de humanos. Desta forma, aquele exterminador não executava um humano há tempos, e, aliada à falta de manutenção, seus sistemas estavam confusos e já não funcionavam com a mesma competência.
— Quero voltar pra casa. – disse Síria, desta vez num tom lamurioso com os olhinhos enchendo-se de lágrimas.
O gigante de metal tentava absorver todas as informações. Palavras e reações. A eletricidade passava por seus fios e cabos e reportava todas as informações ao cérebro positrônico. Faíscas surgiram na tela que servia como olhos artificiais do robô. As armas foram retraídas e sumiram do campo de visão da garotinha, que ergueu o amigo pelo braço de pelúcia e falou:
— Bob está com saudade de casa também.
O monstro de metal permanecia inerte em frente à menininha. Toda a sua imponência e poderio destrutivo estavam desordenados pela afetividade da pequena garota de olhos verdes que saltitava impaciente esperando alguma resposta da máquina. O Meridion 4 abriu a enorme agarra que lhe servia de mão; segurou Síria delicadamente e ergueu-a no ar. Aproximou o rosto de traços finos da menina junto à sua tela ocular por alguns segundos. Entendeu que aquele pequeno ser não representava nenhum tipo de ameaça a ele e a ninguém. Ligou seu sistema de flutuação que ficava localizado sob seus pés de aço, e seguiu em direção ao módulo de armazenamento criogênico. Colocou a garota dentro da cápsula confortavelmente. Apertou o botão lateral fazendo com que a porta transparente se fechasse quase sem fazer barulho. Na lateral externa no módulo, havia um quadrado alfa-numérico, e logo acima, um codificador retangular de onde piscavam algumas luzes vermelhas. O exterminador, então, apertou o número três e em seguida o número zero: “30”; em seguida o botão “iniciar”. O dispositivo luminoso apitou e rapidamente uma fina bruma começou a encher toda a cápsula onde Síria estava. A garotinha sentiu o efeito do gás letárgico e bocejou. Piscou pesadamente, e antes de cair num novo sono de mais trinta anos, sorriu para o Exterminador e disse:
— Obrigada, tio. – E já com os olhos fechados, – Agora vou ver meus pais.
Lino França Jr. é natural de São Paulo. Com formação em Direito pela Universidade Municipal de Ensino Superior de São Caetano do Sul. Participou de algumas Antologias de contos, e entre elas estão: Réquiem para o Natal (Editora Andross - 2008), Seleta de Contos de Autores Contemporâneos (Editora CBJE - 2009), Solarium (Editora Multifoco - 2009), e Sinistro! (Editora Multifoco - 2009). Ainda pela Editora CBJE lancei em 2009, meu primeiro livro solo, intitulado, "A VOLTA DO TODO PODEROSO".
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