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A Cronosseia Desvairada de Mariah
Carlos Margarido   

 

Ficção Científica

Escrito por  Carlos Margarido

Muitas pessoas não sabem disso, mas os centros do Instituto de ReVida Phoenix são totalmente automatizados. Não há nano-empreiteiros, biólogos ou gengenheiros  neles. Apenas psicólogos, pedagogos e  alguns antropólogos. O método de ReVida deles é tão mecanicista que embora nunca falhe em trazer pessoas de volta, também nunca falha em chocá-las intensamente. Nosso mundo é lindo e beira o utópico para nós que nascemos nele. Mas para a maioria dos descongelados, ele não é nem um pouco convidativo e pode se tornar bastante... unsettling.

O caso de Mariah soará bastante elucidativo. Ela morreu no fim daquilo que os historiadores ironicamente chamam de a Era Contemporânea, antes dos nanobots, antes da Cidade-Alta, muito antes da Neuronet. Mariah começa sua odisséia quando morre. Um ataque fulminante de coração enquanto assistia TV e tomava Coca-Cola. Ela era fotógrafa. Havia trabalhado por quase toda sua vida para jornais impressos. Mariah foi congelada com tecnologia absurdamente primitiva. Basicamente jogaram seu cadáver num tanque de nitrogênio líquido e esperaram a ciência fazer o que podia.

Quando acendeu ao posto de maior indústria bio-tecnólogica do planeta, pouco antes do surgimento da RecombiGenics e suas DNA-plásticas, o Instituto Phoenix comprou os direitos de tentar reviver todos os congelados, até então. Eles começaram com os mais novos, abrindo exceção apenas para Disney, por seu poder como arma de marketing. Hoje eles chegaram à célula Criogênica 4325B. A Célula onde está o corpo de Mariah.

Todos os prédios do Instituto Phoenix são circulares. Nas paredes internas do círculo, em toda a sua extensão, as células criogênicas encontram-se empilhadas. Uma garra metálica passeia pelo centro e recolhe a de Mariah. Levando-a até o penúltimo andar, onde estão os tanques de ReVida. A garra encaixa a célula num tubo. Essa ligação, tubo-célula-garra, ativa uma série de scans rotacionais que medem massa corporal, estrutura molecular e o genoma do cadáver. 

Um segundo tubo, do outro lado do círculo é ativado. Ele é preenchido com água, aminoácidos e compostos de carbono em geral. Parece uma mistura de água e decompostos orgânicos que se assemelha à lama em cor e textura. Depois o tubo recebe uma enxurrada de nano-robôs de material orgânico. Eles operam como uma micro-impressora molecular, mas agem em enxames formados por milhões de indíviduos. O resultado dos scans sobre o cadáver é processado num computador remoto, na nuvem. O Instituto Phoenix analisa os dados e monta uma planta 3D do corpo.

 Na hipótese do indíviduo ter Neuronet, o backup do cérebro é utilizado para reavivar suas memórias. Se não for o caso, as moléculas que formam as células neurônicas são mantidas na posição estimada da que estariam minutos antes da morte. Não é um processo que funciona 100%. Existe perda de memória considerável, mas o senso de identidade e as memórias mais profundas são quase sempre mantidas. O Corpo é rejuvenescido pelos computadores até a idade escolhida pelo indivíduo. O padrão é 21 anos. Cicatrizes e tatuagens podem ser mantidas ou eliminadas. Qualquer DNA-plástica requerida pode ser adicionada nesse estágio.

Depois que o arquivo da planta do corpo é fragmentado em unidades nanométricas, ele é assinalado aos nano-robôs. Eles assumem uma posição espiralada dentro do tubo e iniciam um processo longo de encaixar os aminoácidos uns nos outros e construir carne e tecido sintético. Tecnicamente, não há desvantagens científicas no processo, pelo contrário, mas existe um certo preconceito social contra os congelados por eles se constituírem 100% de carne sintética. 

O tubo é esvaziado, a água e qualquer sobra eliminada (na verdade, um exame cuidadoso sob as unhas de um indíviduo recém-revivido, demonstraria uma certa concentração da lama utilizada na fabricação de seu corpo).  Uma nova solução aquosa o preenche. É basicamente um soro, absorvido cutaneamente, cujo o objetivo é mimetizar o estado de nutrição de uma pessoa saudável. Os nanobots adentram o corpo inanimado, que acabaram de construir, e se acumulam pela extensão do sistema nervoso. São 7 áreas de interesse, espalhadas por todo o corpo e compostas de 28 pontos. Eles implodem liberando uma carga de elétrica que se espalha e reanima os músculos involuntários. O coração volta a bater. E as tempestades elétricas do cérebro logo se tornam auto-suficientes. 

O tubo se esvazia novamente. O soro vai descendo. Mariah abre os olhos e sabe instantaneamente o que aconteceu. Ela sabe que morreu. Ela sabe que voltou à vida. Ela sabe que está no futuro.

O tubo se abre ao meio.  Mariah está nua, molhada e bastante assustada. Força seus braços pra cima e eles respondem como se fossem novos. Ela os usa como apoio e fica sentada a tempo de ver a garra em sua frente retirar o tubo onde estava congelada e iniciar uma descida pelo fosso no meio do prédio. Está surpresa. O ambiente é estéril e ela parece estar sozinha. Então, desce do tubo, ainda um pouco grogue e se perguntando se não está apenas sonhando.

Mariah vê uma espécie de roupão branco, com o logo sem significado algum das empresas Phoenix sobre um mancebo ao seu lado. Está um pouco tonta e incomodada pois não consegue se lembrar de coisas simples como o que havia comido em seu último almoço. Ela cambaleia rumo ao roupão. Quando o retira do cabide dá um pequeno salto, assustada pelo fato de que o tubo havia se fechado com um som pneumático suave, mas ainda assim inesperado.  

Uma porta se abre. Mariah vê uma escada. E também o que parece ser luz do Sol.

Ressabiada ela começa a subí-la. A cada degrau questiona-se se fez a escolha certa de voltar a vida. Está cheia de expectativas. Não sabe o que esperar. E quando chega ao últrimo andar, fica completamente desnorteada.

É sua primeira visão do novo tempo que ela chama de lar. Um passeio verde sobre o topo de um prédio enorme. Uma praça com uma vista de uma skyline, que simplesmente não parece lógica à ela. Os prédios se movem. Andares inteiros trocam de edifícios e a Cidade inteira parece interconectada por tubos cilíndricos por onde trens movidos a jato movimentam-se. Tudo muda de lugar constantemente. Nada no horizonte permanece intacto.

— Chama-se Arquitetura Fluída. Aparentemente, existe há dois séculos já. Depois que você para de tentar andar por aí sem um navegador decente torna-se bem prática. - É uma voz masculina, suave e sussurante. Mariah se vira. Um homem usando uma roupa branca, ela não consegue entender o tecido. Ele volta a falar:

— Meu nome é Mark. Pelo menos foi. Eles nos encorajam a adotar novos nomes... Você acabou de acordar, não foi? Sabia que estamos na estratosfera?

— Pare de incomodá-la, Mark. Olá Mariah, meu nome é Jaohe. Sou uma funcionária treinada do Instituto. Estamos aqui para auxiliar sua reinclusão social! Se não se incomodar, siga-me, há uns testes que gostaria de fazer.

Ela titubeia e hesita. Estratosfera? Do que diabos ele está falando? A moça... (como se chama?) se põe a andar e mesmo ressabiada, Mariah a segue:

— Em que ano estamos?

— Você está morta faz quase cinco séculos. Mas abandonamos a contagem de anos seguindo o calendário que você conhece há algum tempo.

— Onde estou?

— Você conhecia essa área da Cidade como o pedaço do Pacífico que separava a Califórnia do Havaí. Esse é o distrito B31 do centro #7, Los Angeles.

— Estamos mesmo na estratosfera?

— Tecnicamente não. Expandimos a Troposfera para tornar essa altitude habitável. Não se preocupe, no entanto, você está completamente segura. Sente-se, por favor.

Mariah se senta num banco que não tinha notado estar ali. Tem a sensação de que ele se elevou do chão quando a moça pediu que ela sentasse. A médica tira uma lanterna do bolso. Mariah fica feliz pelo fato de que o exame lhe parece compreensível. A médica testa os reflexos de suas pupilas. E depois usa a lanterna que agora também parece um martelo para testar os reflexos das pernas e braços dela. Enquanto faz isso, pergunta se Mariah sente enjôos ou qualquer outra forma de desconforto. Ela faz que não com a cabeça, enquanto sua mente ainda está dominada pela paisagem urbana bruxuleante que vê no horizonte. 

— Muito bem, seu novo corpo funciona perfeitamente. Siga pela linha verde até os módulos de aposento. Tome um banho. Durma um pouco. Ainda temos 6 horas até a primeira sessão de Terapia Conjunta.

— O que aconteceu com meu marido? Onde ele está?

A moça ruboriza:

— Acho melhor que te expliquem isso depois. Não se preocupe. Tudo ficará bem.

  
 

No centro da praça elevada encontra-se uma reunião de muitas pessoas em círculo. Mariah se aproxima devagar, um pouco embasbacada. Se senta em silêncio e espera a sessão começar. Ela logo descobre que ficará ali por mais duas semanas, antes de sair para a Cidade. Explicam a ela que isso é importante pois há muito que precisa aprender e também porque esse é um bom tempo de observação para se certificar de que o corpo dela não agirá de forma inesperada. 

Contam-lhe sobre a história da Cidade. A Corja, o Instituto, as DNA-Plásticas, a Neuronet, os Future People. Ela sempre foi uma pessoa ávida pelo futuro e ouvir aquilo a enche de um orgulho inexplicável acerca do engenho humano. Contam-lhe que seu marido morrera muitos anos depois dela e que por isso já havia sido descongelado. Eles Lhe dizem que quando ela for liberada, receberá seu endereço. 

Durante as duas semanas, Mariah tem aulas de história e de familiariazação com novas tecnologias. Ela não tem Neuronet, e até onde tenha entendido, nunca conseguirá ter. Então, a ensinam  operar os terminais computadorizados para tarefas básicas, como manipular o formato dos objetos de liga nanita e navegar pelo constante labirinto mutável de ruas e trens da Cidade. E então, chega sua hora. Os médicos dão a ela uma muda de roupas e uma bolsa hipercúbica.  Finalmente, pega um elevador com outras duas pessoas rumo ao nível das ruas.

A porta se abre. Ela pisa na realidade e logo, mas logo mesmo, se arrepende.

Na parede do instituto uma pixação do que ela foi ensinada a reconhecer como tinta nanita serpenteia e diz:

"Voltem para os seus malditos freezers".

 

A verdade é que embora o Instituto Phoenix nunca minta para os revividos, eles omitem boa parte da verdade. Mariah descobriu isso logo. Em primeiro lugar, os terminais computadorizados que ela havia sido ensinada a usar eram escassos. A maior parte deles quebrada e abandonada. E depois, e ainda mais revoltante, era o fato de que em nenhum momento das semanas de reaclimatação, ninguém falava nada sobre o sentimento cronoxenofóbico da Cidade-Alta. 

Ela vagou por horas sem conseguir entrar num trem. Corria de um lado ao outro por ruas que mudavam seus fins e começos, ora subindo e depois descendo. Era girada no espaço de forma que jamais chegava à estação. Pediu ajuda a um senhor que alimentava esquilos quando ficou presa num parque. E ele cuspiu nela. Ele cuspiu nela! Aquilo era absurdo.

Quando finalmente entrou no sistema metroviário, Mariah descobriu que seus problemas haviam apenas começado. Seu marido aparentemente morava do outro lado do Planeta, e embora o tempo previsto de viagem até o centro #160 da Cidade, Sidney, fosse de apenas 28 minutos, era bastante complicado chegar lá quando seu trem começava indo para a Ásia e depois mudava de direção.

Ela se perdeu por muito tempo em Praga. Estava cansada e anoitecia, só queria chegar no endereço que tinha e reencontrar seu marido. Ela sabia que isso a faria sentir melhor.

Então, achou um terminal operante e percebeu que podia fazer melhor que isso. Podia ligar pra ele. E fez isso. 

Ele atendeu. Ela sorriu e disse-lhe quem era.

Seu mundo desabou enquanto ele explicava-lhe a situação. Havia se casado novamente depois da morte dela. Morava com sua segunda esposa. Ela se arrependeu por estar viva e amaldiçoou o engenho humano como nunca.

 

Passaram-se meses, nos quais ela viveu de suas economias, alugando um apartamentozinho vagabundo no centro #305 da Cidade, Bogotá. Ela procurava emprego, mas fotografia era algo que não podia fazer mais porque comparada a um amador que tira fotos com os próprios olhos, ela não era ninguém. Até que seu dinheiro acabou, foi despejada e passou a perambular pelas ruas. Revendeu o pouco que tinha comprado por comida e quando ficou de fato sem ativos, lutou pela sua sobrevivência prostituindo seu novo corpo em becos escuros.

Mariah odiava estar viva. Ter voltado havia apagado quase todas as suas memórias felizes, senão pelo processo ineficiente de reconstrução cerebral, então pelas lembranças amargas que acumulara desde então.

Ela tinha uma espécie de fetiche secreto por tentar conhecer a Cidade-Baixa, por pisar no solo novamente. Por ver a costa real do mar de novo.

Certa noite, fez um programa com dois casais endinheirados e faturou o suficiente para tentar.

No dia seguinte, pela manhã, Mariah se dirigiu a um Commerce BlitzKrieg e comprou um ticket só de ida.

Ela conseguiu descer junto com a feira quando ela se desmontou.

Ela se afogou no mar, e morreu em paz. Serena e feliz.

Ela tinha um plano de ReVida permanente.

Ela acordou de novo, duas semanas depois.

 

 
 
 
Hoje em dia, Carlos Margarido prefere ser chamado de terminal1. Ele acredita piamente que é uma consciência humana funcionando num hardware governamental de pesquisa que órbita a Terra a 30.000 km de altitude. Interessantemente, isso não parece afetar sua vida social
 
 
 
 
 
 
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Autor deste texto: Carlos Margarido
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