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Na última Curva
Junior Cazeri   
NA ÚLTIMA CURVA

Terror

Escrito por  Júnior Caseri

 

— Conheço um hotelzinho ótimo onde você pode passar a noite. Mas acorde cedo pra não chegar atrasadinho amanhã.

A secretária loira, cujo nome deve ser esse mesmo, era do tipo que gostava de chamar a atenção. Por não ser criativa, apelava para as vexatórias piadas pré-fabricadas de escritório, tão deslocadas quanto o decote que ostentava.

Passava da meia noite, eu tinha atravessado a madrugada anterior preparando relatórios que ninguém leu e viajado seiscentos quilômetro para conhecer o novo diretor geral na matriz. O memorando dizia: “venha puxar o saco do novo diretor. Presença obrigatória”. E eu fui.

A reunião durou seis horas, ele prometeu muito e não propôs nada. Alguém disse que jantaríamos no melhor restaurante da cidade para encerrar o encontro. Pensei em grampear minhas pálpebras na testa para mantê-las abertas, mas outro colega fugiu com o grampeador para o banheiro.

— O gráfico estava bonitinho, foi você quem fez?

Com as coxas encostadas nas do novo diretor, a secretária loira exibia um sorriso convidativo. Eu sabia que eles iam esticar a noite em um hotelzinho bonitinho, bem pertinho, que podiam pagar com o cartãozinho corporativo e ainda chegar cedinho no trabalho amanhã.

O garçom anunciou que a cozinha ia fechar e um minuto e treze segundos depois eu estava no carro, voltando pra casa.

Se eu não tivesse que me encontrar com um fornecedor, bater uma meta, demitir um funcionário, contratar outro, levar minha filha ao dentista, comprar um presente de aniversário para minha esposa, sair com o cachorro pra passear e rasgar os relatórios que ninguém leu, tudo no período da próxima manhã, não teria voltado durante a madrugada. Mas a vida é dura, e o tempo é curto. Foi o novo diretor quem disse isso.

Pelos vidros baixados, a brisa soprava em meu rosto abatido, sustentando as pálpebras pesadas pela falta de sono. O cheiro azedo do suor já me incomodava mais que todas as dores musculares. Um banho gelado e poucas horas para dormir, era disso que eu ia dispor ao chegar.

Tente ficar dois dias seguidos sem pregar os olhos. É uma experiência divertida. A princípio, nem parece fazer diferença, exceto pelas olheiras. No entanto, conforme o tempo passa, seus movimentos ficam lentos, assim como sua fala e pensamentos. Vem uma dor de cabeça que começa atrás dos olhos e sobe, parando bem no alto do crânio. É como usar um macaco louco com um martelo nas mãos no lugar de um chapéu, e você ainda baba e acha graça por nada parecer real.

Pestanejei rápido e me assustei, alinhando as costas no assento e fazendo o carro balançar com suavidade, sentindo o atrito dos pneus sobre o asfalto e afastando o torpor. Passei as mãos pelo rosto, esfregando os olhos ardidos com dedos suados.

Meus intestinos protestavam em uma cólica ruidosa, que denunciava que o jantar tinha batido mal. Avistei uma placa que indicava sessenta e quatro quilômetros até a cidade. Falta pouco, pensei, e dormi. Pelo menos, eu acho que era isso que eu pensava. Nossos últimos pensamentos sempre se perdem quando caímos no sono. Talvez eu ainda tenha pensado em algo mais.

Acordei quando uma das rodas saiu da estrada e caiu no acostamento. Despertei puxando o ar para dentro dos pulmões com tanta força que senti o peito queimar. Por milagre, tirei o pé do acelerador quando apaguei, e o carro foi perdendo velocidade, até sair pela mão contrária e pousar suavemente fora dela. Isso eu entendi depois, pois quando voltei a mim, por reflexo, meti o pé no freio, parando na lateral pedregosa da pista.

Meus olhos estavam nublados, tentando desvendar o quanto eu tinha avançado inconsciente pelo caminho. Vi a placa dos sessenta e quatro quilômetros à frente, refletindo a pouca luz. Passaram-se apenas alguns segundo, um tempo enorme.

Puta que o pariu!

Nunca senti meu coração batendo tão rápido e de forma tão ruidosa como naquele momento, com a poeira entrando pelo vidro aberto. Tremia tanto que não conseguia fixar as mãos no volante. Fiquei ali por um tempo, degustando uma porção de náusea e tontura. O sono tinha desaparecido, graças à descarga súbita de adrenalina. Só ao ter certeza que meus pés iam se manter firmes sobre os pedais, é que dei  a partida e segui adiante.

Algumas imagens começaram a pipocar em minha cabeça. A da minha esposa, atendendo uma ligação na madrugada, e algum infeliz mal humorado contando a ela que eu tinha sido esmagado por um caminhão, que transportava galinhas para uma granja, se misturava com a de alguém comentando no escritório da matriz: “coitadinho, eu falei pra ele dormir em um hotelzinho”.

Já ouvi histórias assim. Você começa não se conformando que tenha acontecido com você, fica puto, depois agradece aos céus e, por fim, começa a se achar o máximo. Quilômetros à frente, eu ria. Puta que o pariu, eu podia ter morrido, mas estava vivo. Eu era demais mesmo. Talvez nem demitisse o funcionário que precisava ser demitido pela manhã.

Liguei o rádio, apesar do macaco agora ter dois martelos para bater em minha cabeça. Tentei me enganar, pensando que eu queria música por estar feliz, mas era o medo que exigia uma distração. Fiquei surpreso com o bom gosto da programação e acompanhei a canção, atento à estrada.

“Every single day, every word you say, every game you play, every night you stay, I’ll be watching you”

Fui cantando e batendo os dedos no volante. O carro fez um mergulho e avistei uma curva à frente, com o brilho intenso dos faróis iluminando não só a estrada, mas também uma figura postada diante de uma placa, poucos metros antes da pista dobrar para a esquerda.  Tive que forçar os olhos, me aproximando do pára-brisa para conseguir enxergar. Achei que era um motorista com problemas, mas ele não sinalizava ou se movia e ao chegar bem perto, senti como se uma mão invisível esmagasse minha garganta.

O homem devia ser alto, mas estava curvado para frente, o que lhe diminuía o tamanho. Tinha o queixo apoiado no peito, expondo mais a testa do que qualquer outra parte do rosto. A camisa era um trapo imundo, de cor indefinida, vítima de uma praga que a cobria de manchas escuras e buracos. A calça descia abrindo-se em muitas tiras retorcidas e duras de tecido, até os pés tortos, dobrados em uma posição impossível. Os braços pendiam, secos e apáticos, ao lado do corpo.

— Santo Deus!

Um acidente, com certeza. O coitado devia estar ali a um bom tempo, já que eu não tinha cruzado com nenhum outro veículo nos últimos quilômetros. Estava pronto para jogar o carro no acostamento, parando diante dele, quando seus olhos se levantaram. Aquilo fez o meu sangue gelar, ardendo em minhas veias. Suas pupilas eram duas bolas vazias e opacas. Das sombras, sua boca se revelou. Garras pareciam ter arrancado seus lábios, deixando um rastro de pele e músculos retalhados da ponta do queixo até a orelha direita, descortinando as gengivas e os dentes escuros em um eterno e macabro sorriso.

Não pisei, finquei o pé com toda minha força no acelerador e sai cantando pneus. Lancei o carro para a mão oposta para passar o mais longe possível daquela coisa que me acompanhava com os olhos mortos, escancarando a boca horrível para gritar algo que não consegui ouvir. Seus braços levantaram com um esforço terrível, tentando alcançar o veículo que disparava, fazendo a curva e desaparecendo.

Meu Deus! Meu Deus do céu!

Eu me apertava na direção, sentindo dedos gelados que não existiam acariciando minha nuca, voltando os olhos a todo o instante para o retrovisor. Temia que ele surgisse dentro do veículo e me agarrasse pelo colarinho. Eu estava alucinado, guiando em alta velocidade e derrapando nas curvas. Não conseguia engolir. Minha língua estava presa ao céu da boca, impedindo o coração de subir pela garganta e fugir, saltando para a noite.

Cento e dez. Cento e vinte. Cento e trinta. Eu avançava, contando os segundos para chegar em casa e me jogar na cama, cobrindo a cabeça e escondendo meu terror embaixo dos edredons, como fazia quando criança. Era isso que me mantinha na estrada, a vontade de entrar na caverna e ficar oculto em sua segura escuridão até o nascer do sol, apagar o que eu não podia entender.

Um outro eu, muito mais racional, tentava me dizer que aquilo não tinha acontecido. Era o stress e a falta de sono. Na pior das hipóteses, meu medo tinha me obrigado a abandonar um ser humano que precisava de ajuda em uma estrada deserta.

— Vai tomar no cu, porra!

Não tinha carro algum. Não tinha acidente nenhum. Eu vi aquela coisa. Um pesadelo vivo pedindo carona. Uma alucinação doentia tomando a minha frente. Não sei, mas eu vi. Estava lá, me perseguindo, e levantou sua mão imunda, gritando em minha direção. Como isso podia acontecer?

“I’ve been looking so long at these pictures of you

That I almost believe that they’re real”

Desliguei o rádio com um tapa. Cento e quarenta. Cento e cinquenta. Desacelerando nas curvas, que eram cada vez mais difíceis de fazer. Não só pela velocidade, mas porque a tensão deixava meus braços rígidos, e eu apertava a direção com tanta força que as pontas de meus dedos já estavam dormentes.

Percorri, em alguns minutos, o que levaria meia hora para cobrir, graças ao pavor que me forçava a acelerar sem trégua. Calculei que logo ia ver as primeiras luzes da cidade aparecendo ao longe, pontinhos luminosos desalinhados em uma geografia irregular.

O carro curvou-se em uma descida acentuada, rangendo ao bater no ponto onde ela se tornava uma reta e logo dobraria para a esquerda. Vi mais uma placa e acompanhei a informação, sem conseguir desgrudar o olhar incrédulo dos números que apareciam diante de mim.

Mas, que puta que o pariu é essa?

Voltei os olhos para a estrada e lá estava ele, bem no meio da pista, a bocarra aberta e os braços estendidos como se quisesse abraçar o carro que voava em sua direção.

Avistar aquele homem saído de meus pesadelos foi como ter uma serpente de gelo subindo por minhas pernas, provocando um calafrio sísmico, que explodiu em uma contração dolorosa no estômago, um relâmpago de pavor que me impedia de respirar.

Colei as costas no assento e, sem pensar, guinei para a esquerda, desviando no último instante e ouvindo a batida dos dedos escuros da criatura na lateral do veículo. Não foi uma manobra inteligente. Percebi que o lado do passageiro erguia-se no ar, já que eu andava em duas rodas. Agarrei o volante e agradeci aos céus por ter colocado o cinto. Os faróis desenharam uma série de arcos sobre o asfalto, enquanto o carro girava no ar com um rugido metálico. O mundo se espatifou em centenas de estilhaços brilhantes, que voaram atingindo meu rosto e peito, entrando na pele e se fundindo a mim. O som era enlouquecedor. Mesmo assim, eu ouvi o que a criatura gritava com sua boca bizarra.

 

 

— Acorde!

Sombras. Arredias e translúcidas. Era o que eu via entre minhas pálpebras inchadas. Um universo de formas difusas cobertas por um brilho cintilante. Tentei me mover, mas não consegui.

— Acorde, homem!

Juntei tudo o que restava de minha força de vontade para abrir os olhos e, mesmo com eles arregalados, não consegui distinguir o que estava diante de mim.

— Pode me ouvir, senhor?

Eu ia balançar a cabeça em afirmação, pois estava cansado demais para falar, mas eles já tinham fixado o colar cervical, e não pude mover nem um fio de cabelo.

Fiquei assustado e tentei me levantar. Foi como tomar vinte facadas ao mesmo tempo, em diferentes pontos vitais do corpo. Fui repreendido pelo paramédico, e a dor me fez ter certeza que minhas pernas e braços ainda respondiam a meus comandos.

— O senhor sofreu um acidente muito feio. Não tente se mover.

Levantaram primeiro a cabeceira da maca, não sei se era o procedimento ou se foi falta de sincronia entre os carregadores. A inclinação me permitiu ver o carro, tombado com as quatro rodas para cima, e achatado como se um gigante tivesse pisado sobre ele. Os pedaços de vidro se espalhavam até onde as vistas podiam alcançar, refletindo o brilho tênue do sol, que se levantava no horizonte.

Chorei de dor e pra dar vazão ao desespero.

Quando me colocaram na ambulância, pude ver um bombeiro carregando a placa retorcida de metal, que devo ter atingido com o carro, indicando sessenta e quatro quilômetros até a cidade.

 
Junior Cazeri é formado em Processamento de Dados, e atua como
instrutor de informática e design gráfico em redes de ensino
profissionalizante. Natural de São Pedro - SP, já foi fanzineiro, e
agora escreve no site:
 
 
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Autor deste texto: Junior Cazeri
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